Fort Atacadista corta lixo em aterros de 44% para 10%
e aponta caminhos contra desperdício no Dia do Lixo Zero
Experiência em loja indica redução de metano e reforça papel do varejo em um dos maiores desafios do sistema alimentar

No Dia Internacional do Lixo Zero, que acontece todo 30 de março, somos convidados a refletir sobre este desafio global. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de um terço dos alimentos produzidos no mundo é perdido ou desperdiçado e os resíduos orgânicos em aterros estão entre as principais fontes de metano, gás de efeito estufa com impacto climático superior ao dióxido de carbono, o C02, no curto prazo, com graves impactos para as mudanças do clima.

É nesse contexto que o varejo passa a ser visto não apenas como problema, mas também como parte da solução. Uma experiência em Santa Catarina joga luz sobre esse potencial. Uma unidade do Grupo Pereira reduziu de 44% para 10% o volume de resíduos enviados a aterros ao longo de 2025, a partir de mudanças operacionais e gestão mais eficiente dos resíduos.
O resultado suscita uma questão: até que ponto soluções já disponíveis podem ser escaladas para enfrentar o desperdício em escala mais significativa?
Problema
O desperdício no varejo está diretamente ligado à complexidade da operação, como o manejo de produtos perecíveis e a dinâmica de consumo. No caso analisado, a redução não veio de uma inovação isolada, mas da reorganização de processos.
“A gente atua desde a origem do resíduo, com segregação correta nas lojas, até a destinação final, priorizando compostagem e reciclagem”, afirma a head de Comunicação Corporativa e ESG do grupo, Simone Cotta.
A unidade piloto, em Rio Tavares, operou como um laboratório para testar ajustes na triagem, padronização de fluxos e capacitação das equipes. “O desempenho da loja demonstra a viabilidade técnica da meta de ‘aterro zero’ para o Grupo e serve como laboratório para padronização das melhores práticas”, diz.
Impacto climático
Quando resíduos orgânicos são destinados a aterros, sua decomposição gera metano, um dos gases mais potentes em relação ao aquecimento global. Em 2025, ao menos 126 toneladas de resíduos orgânicos gerados na unidade foram transformadas em adubo por compostagem. Esse volume deixou de ser descartado em aterros, reduzindo as emissões associadas à prática.
Outras ações de economia circular também contribuíram: o reaproveitamento de paletes evitou a emissão de 822 mil quilos de CO₂, o descarte de 675 mil quilos de resíduos e a derrubada equivalente a 2.461 árvores.
O gargalo
Apesar dos avanços, o exemplo de Santa Catarina revela limites estruturais que ainda dificultam a transição para o “lixo zero”. “O principal desafio está na integração de toda a cadeia, principalmente na previsão de demanda e na gestão eficiente de produtos perecíveis nas lojas”, explica Cotta.
Produtos como frutas, verduras e carnes exigem controle rigoroso e rápida destinação. Variações no consumo e desafios logísticos ampliam o risco de perdas. Outro fator crítico está no comportamento do consumidor. “Em muitos casos ainda há uma exigência por padrões estéticos elevados na escolha dos produtos”, afirma.
Esse padrão contribui para o descarte de alimentos ainda próprios para consumo, um dos principais pontos de ineficiência do sistema.

Redistribuir
Parte da solução passa por redesenhar o destino dos alimentos que deixam de ser comercializados. Em 2025, cerca de 890 toneladas foram doadas por meio do programa Mesa Brasil Sesc. Desde 2024, mais de 39 toneladas de alimentos foram reaproveitadas por meio da venda de excedentes, fruto de parceria com a Food To Save.
Complementando essa estratégia, o grupo iniciou no último ano o piloto do Sobrou.app, uma plataforma que conecta alimentos próprios para consumo a instituições sociais. A proposta é ampliar a doação de itens que, embora fora do circuito de venda, ainda podem ser consumidos.
Outra frente é o reaproveitamento interno. Segundo a empresa, nutricionistas selecionam diariamente alimentos ainda em perfeitas condições de consumo, mas que deixam de ser comercializados por questões culturais ou estéticas, para uso nos refeitórios das unidades. “Esses itens são então reaproveitados na alimentação dos colaboradores, contribuindo para o aumento da qualidade nutricional e da diversidade das refeições”, afirma Cotta.

Solução
Este exemplo, e muitos outros que já estão sendo colocados em prática pelo país, reforça que existem soluções, mas sua implementação em escala mais significativa depende de coordenação. A ONU aponta que a redução do desperdício exige uma combinação de fatores: políticas públicas, inovação empresarial e mudança de hábitos de consumo.
No varejo, isso significa integrar fornecedores, operação logística e comportamento do consumidor — um processo que ainda está em construção. “O desempenho da loja demonstra a viabilidade técnica da meta de ‘aterro zero’ para o Grupo e serve como laboratório para padronização das melhores práticas”, diz.